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Roger Waters 2018 no Brasil: Us + Them ou Flickering Flame?


A turnê 2018 de Roger Waters chama-se Us + Them, mas poderia claramente se chamar Flickering Flame (para quem não conhece, são dois nomes muito sugestivos de músicas do compositor). É com certa tristeza que observei em primeira mão o início do ocaso de um grande ídolo, que parece ter perdido um pouco do brilho e exagerado bastante no proselitismo, a um ponto que seus shows estão mais para ativismo político do que para concerto de rock.

Eu não estou afirmando isto meramente pelo lamentável episódio do #elenão, possível fruto de desinformação e precipitação por parte do autor. Ocorre que o brilho já não é mais o mesmo – Roger parece estar tocando “no automático”, com menos sentimento. É difícil criticar alguém que, com 75 anos, ainda consegue proporcionar uma performance de alta qualidade. Entretanto, é inegável que parte do brilho nitidamente se perdeu desde suas turnês anteriores como “In The Flesh” (2002) e “The Wall” (2012), ambas as quais assisti e comentei a respeito.

Roger Waters 2018 - Us+Them Brasil - AntonioBorba.com

Aqueles shows vibrantes e eletrizantes do bom e velho Waters já não existem mais, e um dos principais motivos é a setlist, cheia de idas e vindas pelos álbuns da carreira, sem ordem cronológica, mas, principalmente, com muitos pontos baixos. As músicas do seu último álbum, “Is This the Life We Really Want?”, são excelentes para ouvir, justamente, no álbum. No show, com baixa energia, melodia fraca e completo desconhecimento de muitos fãs, contribuíram para esfriar os ânimos.

Além disso, faixas lindas, melódicas, dos álbuns Final Cut, Flickering Flame, Amused to Death e até mesmo Radio K.A.O.S. foram deixadas de lado. Em 2002, na sua turnê In the Flesh, boa parte do público desconhecia estas músicas, que ainda assim foram apresentadas e eram muito superiores às do seu último álbum.

We don’t need no thought control

O principal problema deste Waters de 2018 é o excesso de proselitismo político. Roger sempre foi um ativista, o que cabe muito bem a um artista do seu quilate. Outrora um crítico com relação a costumes da sociedade, posteriormente um opositor das guerras, recentemente assumiu forte posição contra alguns dos principais políticos e líderes da atualidade. E o pior disso tudo é que quase todo o show se transformou em instrumento de doutrinação. Agora as mensagens não são mais sutis, Roger diz exatamente o que seu público deve fazer, como deve pensar e quem deve demonizar. Justamente ele, que sempre criticou o “thought control” em sua música mais conhecida, Another Brick in The Wall.

Roger Waters 2018 - Us+Them Brasil - AntonioBorba.com

Até mesmo canções que originalmente não tinham qualquer relação com a política (exemplo, Brain Damage, composta em homenagem a Syd Barret), agora se transformam em hinos políticos. As cenas tristes e lamentáveis de desastres humanitários e críticas agressivas permeiam todo o trabalho, desde a introdução, passando pelo intervalo entre os dois sets e por quase todas as músicas. Tudo reproduzido de forma muito clara no gigantesco telão que acompanha seus shows.

Roger Waters 2018 - Us+Them Brasil - AntonioBorba.com

Com isso, a diversão se foi – o show ficou chato e doutrinatório, e se você tiver o azar de não concordar com alguma posição política do rockstar, vai ter que ficar ouvindo sermão durante 3 horas.

A implicância excessiva com Donald Trump e a ignorância do público

Um claro exemplo do exagero de Waters é com relação ao atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Não somente dedica músicas inteiras a criticar o político, mas também o faz de forma muito agressiva, exibindo imagens do presidente vestido como membro da Ku Klux Klan e até mesmo segurando “dildos” (pênis artificiais) de diferentes tamanhos.

Roger Waters 2018 - Us+Them Brasil - AntonioBorba.com

Por fim, acaba deixando claro, em bom português, para quem ainda “não captou a mensagem”, que “Trump é um porco”:

Roger Waters 2018 - Us+Them Brasil - AntonioBorba.com

Neste momento, a galera vai ao delírio, enquanto eu fico me perguntando se foi somente neste momento que entenderam a mensagem. Sem contar que o ataque a Trump foi tão excessivo que chegou à falta de respeito. Concorde você ou não com o atual presidente dos Estados Unidos, até mesmo as críticas, quando em exagero, soam grosseiras e não dignas de crédito.

Waters projetou uma série de frases reais ditas por Donald Trump, e é bem verdade que assim, colocadas em sequência uma após a outra, situações como a insinuação de que poderia sair com a própria filha ou algumas falas hilárias dirigidas ao ditador da Coréia do Norte (“Rocket man is on a suicide mission”) demonstram que o líder da América pode ser rotulado como um verdadeiro idiota. Talvez isso fosse o suficiente.

Roger Waters 2018 - Us+Them Brasil - AntonioBorba.com

Eu não me surpreendi, aliás, de perceber que boa parte do público dos shows de Waters é bastante ignorante com relação aos desígnios do mundo. Por exemplo, enquanto é unânime o entusiasmo, com gritos e aplausos toda as vezes em que as palavras de protesto contra polícia e exército aparecem (exemplos: “Resist militarized police” ou “Resist the military industrial Complex”), outras mais sentenças mais complexas como “Resist rattling your sabre at Iran” ou até mesmo “Resist aliances with tyrants! Like Mohammad Bin Salman Al Saud” produziam nada mais do que o absoluto silêncio ou a indiferença.

Roger Waters 2018 - Us+Them Brasil - AntonioBorba.com

Nestes momentos, o público que se considera muito politizado por concordar com algumas simplórias palavras de anarquia, se viu incapaz de sequer entender, de forma geral, a tradução de expressões como “rattling your sabre” ou até mesmo reconhecer o nome do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, em uma clara alusão à aliança promovida por nada menos que (adivinhem) Donald Trump.

#elenão, o protesto e a capitulação

Diante disso, não é de espantar que, no segundo dia do show, parte do público (principalmente aqueles fumando maconha) presente na área mais VIP e cara do show (Pista Premium), com ingressos na faixa de um salário mínimo, aplaudiram a disfarçada alusão a Bolsonaro, em uma clara orientação de esquerda. Entretanto, algumas pessoas mais esclarecidas se entreolhavam com uma expressão de não entendimento. É a clara presença dos socialistas de iPhone e anarquistas de classe média que estavam ali, na nossa frente, exercendo seu momento de glória esquerdistas.

Entretanto, para surpresa de muitos, mas indo ao encontro da minha expectativa, Roger capitulou após a polêmica do primeiro dia de shows que levou a tumulto e violência dentro e fora do estádio: retirou o #elenão do telão e o substituiu por leves ironias como esta:

Roger Waters 2018 - Us+Them Brasil - AntonioBorba.com

Mais ao final, Waters falou sobre o episódio e problemas que aconteceram. Obviamente que ele não admitiu estar errado, e acredito que jamais o faria. Pelo menos teve o bom senso de modificar o show para evitar que o apimentado momento político do Brasil pudesse se transformar em uma tragédia:

Ainda assim, creio que Roger perdeu um pouco a linha de raciocínio, pois meteu alguma coisa sobre guerra nuclear no fim do seu argumento, como forma de introduzir a música seguinte, que na verdade… não tem nada a ver com isso! Enfim, se alguém entendeu esta parte, por favor mande um comentário aqui no blog e me explique.

Agora, a parte boa

Existe algo de bom no show de Waters. Se você ainda não teve a oportunidade assistí-lo ao vivo, a grandiosidade impressiona. Infelizmente, eu não teria paciência para aguentar um novo show dele. Até mesmo a minha ida ao segundo show em São Paulo foi na esperança de que, se fosse bom o suficiente, eu poderia enfrentar uma reprise em Curitiba ou em Porto Alegre. Desisti, mas continuo recomendando somente para quem ainda não teve a oportunidade.

Roger Waters 2018 - Us+Them Brasil - AntonioBorba.com

Tecnicamente, o show é um espetáculo de efeitos visuais, combinando poderosas imagens com lasers coloridos, um efeito diferente de cenário (as chaminés) e o famoso porco voador, que agora vem acompanhado também de uma esfera um pouco mais sem graça e alguns balões jogados a esmo na plateia.

Roger Waters 2018 - Us+Them Brasil - AntonioBorba.com

Uma das coisas que me surpreendeu foi a boa educação das pessoas e o uso menos intromissivo de aparelhos celulares. Eu jamais esperaria que, em 2018, eu veria um menor uso dos celulares com relação ao show de 2012 em Porto Alegre, em que quase todo mundo queria fotografar e filmar boa parte do espetáculo, esticando seus braços sem se importar se estariam tirando a visão de outras pessoas.

Com muito espanto, eu percebi menos pessoas sacando seus aparelhos, com mais cuidado e sem esbarrar nos outros. Neste espetáculo, eu praticamente não tive estresse com pessoas me empurrando ou se posicionando à minha frente. Difícil dizer se isso se deve ao público de São Paulo em comparação com os gaúchos, mas fica aqui o registro.

Roger Waters 2018 - Us+Them Brasil - AntonioBorba.com

Roger Waters: seu brilho não se apagou, mas da próxima vez em que eu for a um concerto musical, eu gostaria de apenas curtir uma boa música. Isso inclui suas letras de protesto, porém aplicadas ao momento para o qual elas foram criadas.

4 comentários em Roger Waters 2018 no Brasil: Us + Them ou Flickering Flame?

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4 Respostas para Roger Waters 2018 no Brasil: Us + Them ou Flickering Flame?

  1. Joao Lopes Ribeiro da Silva disse:

    Borba:
    Esta foi uma resenha bastante interessante e nota-se que você gosta de Pink Floyd ou a banda que foi mencionando Syd Barret. Só uma adição, a musica “I wish You Were Here” foi também feita em homenagem ao Syd, um gênio.
    Na questão da politização é importante notar que Roger Waters é inglês e ainda existe uma corrente muito forte em toda a Europa em relação a extremismos políticos tando de direita como de esquerda. Assim qualquer discurso que se pareça com extremismo acaba sendo criticado pela maioria dos Europeus.
    Mesmo que a direita esteja crecendo na Europa, essa não é a opinião da maioria.
    Temos que lembrar que ao contrário do momento atual nunca houve um periodo de sequer 40 anos sem uma guerra na Europa. Num passado não muito distante a palavra Paz significava, – “Este ano não tivemos guerra!”.
    Assim fica mais fácil entender porque os Europeus são tão enfáticos na questão de extremismos, pois foram sempre estes que nos meteram em confusões.
    Hoje muitos europeus já entenderam o inevitável. Votar em uns ou outros é só mudar asa moscas de uma mesma poia de me… Escolhe-se só as moscas que incomodem menos.
    Só para explicar um pouco.
    Abraços

    • Antonio Borba disse:

      João, é verdade sobre “Wish You Were Here”, assim como também “Shine On You Crazy Diamond”, para citar outro exemplo. De resto, sensacional seu comentário, ri muito, principalmente a parte sobre “estes que nos meteram em confusões” (rs). Muito bom mesmo. Abraços

  2. Marcelo Morem disse:

    Bela resenha, Borba! Vejo de uma forma natural um artista como o RW perder o brilho depois de cinco décadas de atividade. Assim como não me espanta ele descambar para o ativismo (com alvos seletivos), levando em conta o ambiente político global de hoje. Muito menos que ele critique alguém fortemente identificado com a extrema direita, como o JB. Só me espantou mesmo, no caso do primeiro show de SP, foi muitas pessoas lá presentes se surpreenderem com isso. Teve um amigo meu que achou que ele deveria ter sido imparcial, usando #elesnunca ao invés de #elenão. RW imparcial? Desde quando rsrsrs? Ele já comprou briga com Margareth Tatcher e com o Estado de Israel. Por que aliviaria com o Mito? Embora eu esteja mais alinhado com #elesnunca do que com #elenão, se estivesse naquele show, mesmo que eu não concordasse com ele, jamais o teria vaiado. Primeiro porque ele é RW. Segundo por que rock de protesto é só rock de protesto. É música, é arte, não é pra levar ao pé da letra. Não é algo de onde se esperar algo necessariamente coerente. Por fim, eu não vejo sentido em, pagando um salário mínimo por um ingresso e sabendo de tudo isso que eu comentei, alguém vaiar um show do RW. Mas também não me surpreende, num Brasil tão idiotizado, em que tudo vira mimimi e ninguém respeita uma posição contrária. Se o discurso atende às pessoas é “mitou, lacrou, disse tudo, me representa”. Se não atende é “idiota, …ista, …ista, …ista e …ista”. Chegou o dia em que eu vi o RW ser chamado de mortadela. Larguei de mão rsrsrs.

    • Antonio Borba disse:

      Marcelo, você tem absoluta razão nos comentários, gostei muito. Mas ainda acho que ele exagerou no caso do Bolsonaro, pois o cara sequer foi eleito! É uma acusação antecipada que soa, claramente, como oportunista. Pegou o bonde andando. Enfim, não devemos acabar com o cara devido a isso, eu também não perdi tempo vaiando. Mas foi uma bela lição de Brasil para ele!

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