Netflix e Binge Watching Moldam o Futuro da TV


Por mais de um ano eu paguei os R$ 14,99 mensais da Netflix me questionando se valeria a pena – afinal, havia meses que eu não acessava o acervo constituído basicamente por séries e filmes de catálogo. Minha preferência sempre era por lançamentos disponíveis no Now da Net ou mesmo em Blu-rays alugados. Eu só não gostava de ir até a locadora.

Entretanto, tudo mudou com o lançamento das séries exclusivas da Netflix, ou melhor, da primeira delas – House of Cards.

Netflix House of Cards - Primeira de uma Revolução - AntonioBorba.com

A mudança foi repentina e muito rápida. A Netflix está revolucionando, novamente, todo um conceito de mercado. A estratégia de crescimento da empresa pode ser dividida, a meu ver, em 3 fases:

  1. Locação via correios: a Netflix foi pioneira no conceito de locação que quebrou as pernas da gigante Blockbuster – através do site da empresa, era possível escolher seus filmes preferidos, recebê-los via correio em sua casa – e devolver da mesma forma, pagando uma mensalidade fixa. A possibilidade de ficar com um filme pelo tempo que desejar era revolucionária – adeus multas por atraso! A Blockbuster sentiu a pegada e levou 5 anos para reagir oferecendo um serviço similar. No Brasil, tivemos muitos serviços imitando os originais, operando localmente mediante entregas via motoboy (afinal, não temos um correio como o americano), mas nenhuma das empresas se mostrou confiável. Eu mesmo testei 3 serviços diferentes e cancelei todos.
  2. Vídeo on Demand: de forma inteligente, a Netflix fez o movimento natural do negócio – migrou para o streaming, oferecendo vídeos que podem ser assistidos diretamente do web site da empresa, porém que ficam bem melhores em dispositivos que possuem software específico – tais como videogames (eu assisto em meu PS3), TVs interativas, gadgets que se conectam à TV e até mesmo Apple TV. Atualmente, existe um app para iPad e iPhone.
  3. Conteúdo Exclusivo: o terceiro momento da Netflix está sendo vivenciado AGORA. House of Cards foi lançada em fevereiro de 2013, divulgando os 13 capítulos de uma vez em um fenômeno chamado de binge watching. O usuário com o poder de assistir quandos episódios desejar, da forma que bem entender – pode haver algo melhor? Eu logo percebi como era bom esse conceito e descobri que não estava sozinho. A revista Forbes considera a tendência como representativa do futuro e qualifica a Netflix como um player que está mudando o mercado.

O segredo das séries da Netflix

As séries da Netflix são tão boas que logo paramos para imaginar qual é o segredo por trás delas e por que são, de forma geral, melhores que as séries de TV aberta ou a cabo. A resposta mais plausível parece ser a liberdade criativa concedida aos diretores e a pouca cobrança por resultados, por se tratar de um projeto piloto. Obtendo sucesso muito maior do que o esperado, talvez isso possa lançar uma luz sobre como o êxito no mundo do entretenimento – ou seria apenas devido ao início do mercado? Será que as próximas produções da Netflix ou de concorrentes como a Amazon Instant Video manterão o padrão de qualidade?

House of Cards é um excepcional drama político ambientado em Washington, contando com Kevin Spacey como ator principal. Com altas doses de sarcasmo, a série chega a ser chocante pela frieza com a qual retrata a vida política na América – lobbies, negociações, sexo e poder se misturam em um enredo viciante. Obviamente, tudo isso seria “sacrossanto” perto das falcatruas da política brasileira – aí perderíamos toda a classe e o glamour, definitivamente.

Dirigida por David Fincher (Clube da Luta), não houve economia para a produção dessa série, cuja primeira temporada custou US$ 50 milhões. Depois de House of Cards foi relançada uma série da Fox chamada Arrested Development. A 4ª temporada foi produzida com exclusividade para a Netflix em episódios de 22 minutos – ao contrário dos 45 a 50 minutos das séries tradicionais.

Embora Arrested Development seja engraçada e divertida, nada se compara a uma das mais recentes séries de produção própria: Hemlock Grove.

Hemlock Grove - Série Original NetFlix - AntonioBorba.com

Com a direção de Eli Roth, conhecido pela atuação em Bastardos Inglórios e membro do Splat Pack, grupo de executivos do cinema assim denominados pela participação em filmes violentos de terror, a nova série recebeu um investimento quase igual ao de House of Cards – por volta de US$ 45 milhões – e valeu cada centavo.

O que eu gostei em Hemlock Grove é que me lembrou uma Twin Peaks moderna. Para quem não conhece, Twin Peaks é a série do diretor David Lynch ambientada em uma misteriosa cidadezinha americana cercada por florestas e “assediada” por acontecimentos sobrenaturais. Todo o tema é parecido e a corrupção da sociedade representa uma ideia central a ambas as produções. As longas tomadas de cena, a música, as velhas indústrias compondo uma paisagem decadente junto à natureza local são mais algumas entre as muitas similaridades.

Twin Peaks - Quem Matou Laura Palmer? AntonioBorba.com

Hemlock Grove é mais violenta que Twin Peaks, não resta dúvida – mas somente o fato de mostrar a mais incrível transformação de um lobisomem já vale a audiência. Não confundir com Crepúsculo – não há nada de delicado ou romanticamente bobo em Hemlock.

O futuro da TV

Depois dessa reviravolta em 2013, é possível que a TV jamais volte a ser a mesma – estamos presenciando uma profunda transformação que é consequência direta do crescimento da Geração Y, com cérebro treinado para ser multitarefa – assistir à TV, jogar e ouvir música, tudo ao mesmo tempo. A nova geração, definitivamente, não combina com o método arcaico de distribuição de conteúdo – uma série que passa uma vez por semana nos Estados Unidos e leva 6 meses para ser legendada e transmitida no Brasil.

Em uma sociedade de pirataria, downloads e torrents, nada mais justo que oferecer conteúdo exclusivo a custo baixo – disponível imediatamente, em HDTV. Certamente, isso representa a comodidade máxima – nem compensa o tempo de download da versão pirata. É justamente aí que o binge watching – hábito de assistir aos capítulos de uma série em sequência – casa tão bem.

É possível que a TV acorde para essa tendência. Uma grande felicidade nesse meio é que os grandes diretores estão se voltando para as produções televisivas – tudo começou com a HBO e as parcerias com nomes do quilate de Steven Spielberg, Tom Hanks e outros.

Como se pode ver, a Internet não é inimiga do conteúdo legalizado, da TV ou das mídias tradicionais. Porém, para toda grande mudança, é necessário se adaptar – uma consequência da evolução das espécies já enfrentada pelo homem há milhares de anos. Quem não se adapta, não sobrevive.

Duas formas de ficar ligado nos lançamentos da Netflix são o blog oficial Lançamentos da Netflix e o Nova Temporada, de Fernanda Furquim, colunista da Veja.

2 comentários em Netflix e Binge Watching Moldam o Futuro da TV

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2 Respostas para Netflix e Binge Watching Moldam o Futuro da TV

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  2. Gabriel disse:

    A disponibilidade, a praticidade e a comodidade transformam ele no melhor investimento para grandes redes de TV, não falta muito para inserção de publicidade interativa nesse novo modelo. Mais o Brasil ainda precisa investir em disponibilidade e qualidade da Internet, vencida essa barreira e preciso criar um aparelho de custo acessível para qualidade HD na TV do usuário, ai sim teremos números bilionários nessa nova maneira de se ver TV.

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