Categorias: Magic Run

Corrida de Rua: Prazer x Obsessão

Meia Maratona de Curitiba - AntonioBorba.comDomingo, dia 10 de Julho, completei os 21Km da Meia Maratona de Curitiba. Foi um ponto alto na minha rotina de exercícios e uma grande conquista como atleta amador. Além disso, foi uma das metas que defini para 2011, as quais foram tema do programa da Globo/RPC, que me entrevistou no início do ano.

Procurando observar a forma pela qual eu me relaciono com o esporte e também a atitude de outros colegas e amigos da Magic Run, eu comecei a traçar um “perfil do corredor”. Usei esse perfil para pensar sobre a forma pela qual o corredor vê a si mesmo e como é visto pelas pessoas que não correm.

Há muitos corredores “chatos” – o assunto entre eles é 100% corrida, não há outro tema que possa dominar a conversa. Como tudo na vida, o exagero não é bom. Leva à “evangelização” do assunto. Respeito adesivos como “correr é a minha vida”, mas eu procuro não deixar essa influência se estender em demasia. Será que consigo?

Antes de responder a isso, creio ser importante compreender os motivos que levam os corredores a serem tão obsessivos. E tentar responder à pergunta crucial: o prazer leva à obsessão – ou será que a obsessão leva ao prazer?

Por que a corrida vicia?

Existe um prazer muito forte vinculado à corrida, chamado, originalmente, de “runner’s high” – o barato dos corredores. Mistura de euforia e prazer, em casos extremos chega a causar uma  sensação de “invencibilidade” vinculada à conquista e à superação pessoal.

A causa disso é “quase” uma droga, mas uma droga natural chamada endorfina – um neurotransmissor,  uma substância química utilizada pelos neurônios na comunicação do sistema nervoso. Siga este link para aprender mais sobre o efeito da endorfina no organismo.

O homem, assim como os seres vivos de forma geral, reage com base em estímulos e recompensas. É assim que o ser humano evoluiu para chegar ao estágio atual, considerando que possamos chamar isso de evolução. Portanto, nada mais natural do que buscar o prazer e a sensação de bem-estar, tão fortemente associados à liberação da endorfina no organismo.

Quando somamos esse efeito físico a uma conquista pessoal, à superação de um limite, ao prazer de entrar em forma, melhorar a disposição e outros sentimentos positivos, conseguimos, talvez, entender por que a corrida é tão viciante. E por que tantos corredores, mesmo lesionados, com dores diversas, topam “qualquer negócio” para não deixar de correr. Portanto, se você acha que esse tipo de comportamento, por sinal muito comum, se assemelha a de um viciado em drogas, lembre-se que correr, é, de fato, um vício.

Diferentes pessoas, diferentes comportamentos

O que muda de um corredor para outro é que, conforme a personalidade da pessoa, ela adota uma postura diferente com relação ao esporte. Pelo que pude conhecer das pessoas, consegui traçar alguns perfis típicos de um corredor:

  • O Gregário: é aquele corredor que curte o esporte pela sociabilidade que ele proporciona, ou seja, viver em grupo, fazer amigos e adotar a corrida como “estilo de vida”. Geralmente acaba favorecendo o estabelecimento de vínculos de amizade com pessoas que também correm, por isso há uma tendência muito grande em “só falar de corrida”. Essa pessoa nem sempre busca a melhor performance, mas sim eventos, encontros, treinos coletivos e viagens para correr em lugares diferentes – o que acentua ainda mais a experiência social e a convivência mútua.
  • O Zen: a corrida é um mero instrumento do seu equilíbrio e bem-estar. Curte correr quando está a fim, quando o sol está bonito ou quando tem um tempo disponível, não necessariamente porque precisa treinar. Seus objetivos com relação à corrida são vagos e sua paciência faz com que não se importe em correr “tranquilamente”, pouco ligando para o tempo em que vai completar a eventual prova que escolheu para participar.
  • O Saudável: busca a corrida como uma maneira de manter a boa forma física. Muitas vezes iniciou a correr porque estava acima do peso, com colesterol alto ou porque levou uma bronca do médico. Procura manter a corrida como qualidade de vida, porém, frequentemente, tende a migrar para o anterior (quando se acomoda) ou para o seguinte (quando pega a “febre”).
  • O Obsessivo: oferecendo especial predisposição para pessoas competitivas ou perfeccionistas, esse perfil é o mais radical. O corredor obsessivo está sempre procurando correr a maior distância ou a prova mais veloz. Em busca dos seus limites, frequentemente os encontra, através de lesões que se manifestam das mais diferentes formas. Todo corredor costuma ter um pouco desse perfil, porém o verdadeiro obsessivo é aquele que não aceita obter um resultado inferior na próxima prova – o que pode transformar sua alegria em uma ligeira depressão.

Eu confesso que o último perfil se encaixa muito bem comigo e com vários empresários que conheço. O ambiente naturalmente voltado a metas, competitivo e individualista dos negócios combina como uma luva com o perfil de um corredor obsessivo, e é praticamente a tradução do mundo dos negócios para o esporte. Talvez um dos casos mais conhecidos seja o do empresário Abilio Diniz.

O corredor obsessivo precisa de metas, pois correr, apesar de ser um prazer, perde a graça se não houverem objetivos a serem alcançados. Correr por correr não compensa. O treinamento precisa se traduzir em uma conquista maior do que a anterior, seja em tempo, performance, distância ou dificuldade. Quando a meta se baseia em superar a conquista de outras pessoas, podemos chamar o corredor de obsessivo competitivo.

O corredor obsessivo vai treinar no frio e na chuva, dormir cedo na véspera das provas e seguir a dieta à risca para obter os melhores resultados. O foco e a concentração fazem parte de suas disciplinas, pois o mesmo autocontrole necessário para não se acabar na pizza (ou “mandar ver” sabendo que vai queimar 1.000 calorias depois) é o que o leva a aguentar o desconforto por um tempo maior. Todo corredor experiente logo percebe que é sempre possível aguentar um pouco mais as situações limítrofes de desconforto – alguns minutos a mais enganando o corpo e suportando a dor significam um resultado melhor e… muito mais endorfina depois.

Mais nem sempre é melhor

Finalizando a Meia Maratona de Curitiba - AntonioBorba.comAntes de correr, eu achava o esporte muito chato. Comecei a correr para entrar em forma, forçando muito para “sair de casa” e “cumprir o objetivo”. Fazia isso totalmente contrariado, até que peguei o “bug”, a “febre” da corrida. Isso geralmente ocorre entre 2 a 3 meses para a maior parte das pessoas, que é justamente quando, a partir de um treinamento adequado, a corrida passa a ficar confortável e prazeirosa, além de surgirem os primeiros resultados e benefícios.

Para quem não corre, 10Km parece uma longa distância. Distâncias de 21 ou 42Km parecem impossíveis. Hoje, após completar minha primeira meia maratona (e tendo treinado regularmente distâncias entre 15 a 22Km), sei que os 42Km da Maratona não são difíceis de serem completados, basta dedicação e paciência. Para fazer treinos que duram entre 1h30 a 2h durante a semana e cerca de 3h nos finais de semana (os “longões”), é necessário ter, sobretudo, tempo. Se completar 21Km é ótimo, fazer uma maratona pode ser excelente – ou não.

De fato, já ouvi depoimentos de pessoas que não gostaram nem um pouco de percorrer a distância olímpica. Eu mesmo cheguei à conclusão de que prefiro fazer treinos mais curtos e intensos, buscando velocidade em 5 e 10Km. Os longos podem ser contemplativos e serenos, enquanto os curtos fortes costumam ser bastante exaustivos.

Ser disciplinado é bom. Mas “matar” o treino quando está frio ou chovendo, desistir de uma corrida quando a sensação de exaustão ficar irritante, dar aquela esticada imperdível na véspera de uma prova, é humano e, acima de tudo, divertido. Correr é questão do dia certo, em que dormir pouco não importa se você estiver inspirado. E, se o dia for ruim, largue tudo, pois outros melhores virão. Ao contrário do que eu pensava, descobri que nem toda prova é a sua prova.

Como se pode ver, a corrida serve para qualquer pessoa, com os mais diferentes temperamentos. O importante é não bitolar. Respondendo à pergunta proposta (“o prazer leva à obsessão – ou será que a obsessão leva ao prazer?“), proponho uma terceira resposta: é prazeiroso ser obcecado, desde que pelo sentimento certo – aquele que vai ao encontro da sua personalidade.

Um grande agradecimento vai para a Trainer Assessoria Esportiva (veja também o blog Corredor Trainer), que, através de uma ótima rotina de treinamentos, ajudou a alcançar as minhas metas.

5 comentários em Corrida de Rua: Prazer x Obsessão

Outros Posts:

14/01/2015

Atari 7800: Coleção Completa

O Atari 7800 foi o 3º console na linha sucessória iniciada no fim da década de 70 com o lançamento do videogame doméstico Atari. Enquanto no Brasil somente o primeiro modelo da linha - lançado em 1977 com nome completo de Atari 2600 VCS (Video Computer System) - ficou conhecido, nos Estados ...

Saiba Mais

18/01/2011

Crianças, Adolescentes e Redes Sociais

A segurança das crianças e adolescentes que usam redes sociais é um tema de grande preocupação para pais e educadores. Este é um assunto que repercute constantemente na mídia, e seu consenso final (para surpresa de muitos pais) se resume a: não adianta vigiar, mas sim orientar. Agora vou ...

Saiba Mais

5 Respostas para Corrida de Rua: Prazer x Obsessão

  1. Daniela Portugal disse:

    Excelente texto! Me identifiquei por completo! Muito inspirador…é prazeiroso ser obcecado, desde que pelo sentimento certo, um grande lema a ser seguido!

  2. Pingback: 20min nos 5K - Como Alcancei Minha Meta | Antonio Borba

  3. Pingback: Corrida de Rua: Vantagens das Distâncias Curtas | Antonio Borba

  4. Pingback: Integrantes da Magic Run deram um show na Meia Maratona de Curitiba | Magic Blog

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*