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Roger Waters The Wall 2012 e a Lamentável Educação das Pessoas


Roger Waters The Wall Brasil 2012 - AntonioBorba.comComo fã incondicional, eu assisti ao primeiro show do Roger Waters na nova turnê The Wall que ele está apresentando no Brasil. Foi em Porto Alegre, antes de a turnê seguir para Rio de Janeiro e São Paulo, onde Roger finalizará sua agenda no País. Eu acompanho a carreira do ex-vocalista do Pink Floyd desde a minha adolescência e também assisti ao show In the Flesh em 2002 no Pacaembu, ou seja, 10 anos atrás. De fato, esse é um artista que não costuma dar show toda hora.

Há muitos anos, eu criei um site para traduzir e debater as letras de Roger Waters. O site é dedicado à carreira solo do artista, entretanto, por pura falta de tempo, esse foi um projeto que infelizmente abandonei. Dentre os planos estaria revisar todas as traduções e interpretações sob novo enfoque (afinal, fiz isso há mais de 10 anos) e acrescentar os álbuns The Wall e The Final Cut que, apesar de serem do Pink Floyd, são claramente uma manifestação solo de Waters, que cada vez mais separava seu caminho da banda que capitaneava com David Gilmour.

A nova turnê The Wall

A nova turnê The Wall foi reinventada. Quem conhece a obra-prima do Pink Floyd através de álbuns como The Wall Live in Berlin, gravada em 1990 quando o muro que separava as Alemanhas caiu, vai se surpreender com o novo show. Encontrará uma parede multimídia, com projetores de alta resolução completamente alinhados e sincronizados com cada tijolo, capazes de produzir efeitos especiais dignos de Hollywood.

The Wall com Novos Efeitos - AntonioBorba.com

A respeito das músicas, Waters seguiu à risca o set da obra. Não há neste show outras baladas do Pink Floyd nem da carreira solo do artista. Entretanto, não há nada que fale mais sobre esse gênio veterano do que a ópera rock que representou toda uma geração. The Wall fala dos conflitos que assolaram a vida de Waters desde a sua infância: pai morto na guerra, mãe superprotetora, escola repressora, passando por protestos contra o governo e seguindo até a carreira de megastar do rock, com direito a uma passagem tortuosa pelas drogas, separação da esposa, depressão e traumas que construíram a parede tijolo após tijolo. Uma vez entendidos e vivenciados, esses conflitos foram expostos ao mundo e derrubados com a parede, representando o início de uma nova vida.

Waters fez questão e foi bem sucedido na tarefa de compartilhar e estender seu drama pessoal ao mundo. Como afirmou durante o show, Waters achava que The Wall era sobre ele, mas depois descobriu que era sobre todos nós. É verdade. Cada pessoa pode achar pontos em comum com os conflitos apresentados na obra. Em sua cruzada contra o terrorismo de estado e a favor dos direitos humanos, Roger faz questão de lembrar a todos, permanentemente, sobre as pessoas desaparecidas em virtude de governos mundo afora – the fallen ones. Essas pessoas têm sua voz através da gigantesca parede em diversos momentos do show e também durante os 15 minutos de intervalo:

The Fallen Ones - Roger Waters The Wall - AntonioBorba.com

 

The Fallen Ones - Roger Waters The Wall - AntonioBorba.com

Enfim, The Wall Brasil chegou como um show modernizado, antenado com a realidade do mundo. Quem esperava encontrar uma obra retrô ou com os pés no passado, surpreendeu-se. Novos vídeos produzidos em computação gráfica dão à parede de Waters efeitos tridimensionais e caracterizam críticas inteligentes à sociedade de consumo, como no belo exemplo em que as bombas da Segunda Guerra Mundial foram substituídas por símbolos do poder de Estado e até logomarcas das grandes corporações como McDonald’s, Mercedes e Shell, que são derrubadas impiedosamente sobre nossas cabeças:

Logomarcas como Bombas - Roger Waters The Wall - AntonioBorba.com

E assim as coisas se sucedem até o clímax, no qual a parede vem abaixo em um surpreendente novo efeito… confesso que eu esperava The Wall sendo derrubada vagorosamente como em Berlim, tijolo a tijolo. Certamente, eu não estava preparado e fui surpreendido positivamente pela violência explosiva do mais teatral e representativo dos atos do show:

Tear Down The Wall - Roger Waters - AntonioBorba.com

Enfim: The Wall representa uma geração pós-guerra. The Wall representa uma juventude que ansiava por se libertar da opressão. É uma velha Europa posta à prova, mas também é o consumismo americano desafiado. É o imperialismo e o terrorismo de estado colocados em cheque, expostos de forma patética. Em suma, The Wall acaba representando a exposição do nosso íntimo e dos nossos medos mais profundos. Waters dá uma bela lição de vida ao se libertar das amarras que o prendiam e expor a vida que ocultava por trás da parede. Mais do que um show competente de rock, The Wall tem o poder de nos fazer refletir sobre nossas vidas.

Quer mais? Confira as fotos do The Wall em meu Flickr.

A lamentável educação das pessoas

Agora, infelizmente, preciso falar sobre a postura e a educação das pessoas, fato observado não somente por mim, mas por qualquer um que gosta de apreciar um bom show. Por apreciar um bom show eu quero dizer, primeiramente, poder assistí-lo e curtir seus momentos, o que torna-se muito difícil com o mar de câmeras e celulares que inundam qualquer momento de nossas vidas. Se já é difícil enxergar o palco para quem não é lá muito alto, com braços levantados formando uma barreira de gadgets, torna-se uma frustração:

Mar de Gadgets - Ótima Visão de um Show de Rock - AntonioBorba.com

Oras, longe de mim dar uma de puritano – afinal, eu também tirei fotos durante o showsem flash, seguindo a recomendação da organização – mas foram fotos ocasionais, tiradas em momentos-chave que eu queria levar como lembrança. Bem diferente de pessoas sem noção que pareciam cinegrafistas oficiais da turnê – pessoas que pagaram R$ 500,00 no ingresso da Pista Prime para passar o show todo atrás de um iPhone filmando! Para essas pessoas, não assistir ao show não é suficiente, elas têm que ficar em posição desconfortável realizando uma porcaria de filmagem que depois não vai servir para nada. Comprem um DVD ou Blu-ray, pessoas!

A situação chegou ao cúmulo do absurdo quando, em uma parte do show em que Waters canta por trás da parede (ou seja, sem nenhum espetáculo visual), eu não pude acreditar ao perceber uma menina filmando a música toda com um BlackBerry!!! Filmando exatamente o quê? Eu uso BlackBerry, sei a porcaria que é para filmar e fotografar e tenho perfeita noção de que esse vídeo não vai servir para nada!

Filmando Parede Vazia com um BlackBerry - Roger Waters The Wall - AntonioBorba.com

Enfim, eu sei que 90% das pessoas vão ao show de Roger Waters por causa do Pink Floyd. Elas não conhecem o magnífico trabalho solo de Waters, o que eu até entendo, até mesmo Waters sabe disso e não é louco de fazer um show apenas com o seu trabalho intelectualizado. Há ainda uma boa parcela de pessoas que desconhece a letra e o significado que dá grandeza à sua obra. Isso sim é verdadeiramente lamentável, pois The Wall não tem as baladas mais agradáveis para “curtir um rock” – mas se torna verdadeiramente grande a partir da compreensão das letras e da história de vida que conta.

Com isso, claro, vemos nos shows uma juventude que está lá pela mera oportunidade de assistir a uma lenda viva do rock, não necessariamente para curtir o sentimento de um espetáculo. Para essas pessoas, presumo que um souvenir digital para postar no Facebook seja mais importante do que a verdadeira experiência de curtir um show.

Por essas pessoas, só tenho a lamentar. Suas vidas são dignas de um mural de Facebook: vazias, com conteúdo copiado.

UPDATE: após eu escrever este artigo, no dia 05/04/12 o site UOL fez uma matéria interessante sobre o tema e entrevistou algumas pessoas. Confira clicando aqui.

14 comentários em Roger Waters The Wall 2012 e a Lamentável Educação das Pessoas

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14 Respostas para Roger Waters The Wall 2012 e a Lamentável Educação das Pessoas

  1. Sergio Nicodemos Filho disse:

    Bom Dia Sr. AB, dá uma conferida nesse link http://crazymetalmind.com/2012/04/09/celulares-e-cmeras-em-shows/
    Realmente é triste ir a evento e ao invez das pessoas se fotografarem monstrando a união de um Grupo de fãs, nós vemos câmeras para o Alto ao contrário do que era antigamente, que em determinado momento nos grandes show de rock, quando tinham músicas mais lentas, eram erguidos os isqueiros em sinal de respeito aos artistas.

    • Antonio Borba disse:

      Sergio, puxa vida, é isso aí, mais e mais pessoas ao menos iniciando um movimento contra essa péssima tendência! Os isqueiros já eram, infelizmente, aliás são até politicamente incorretos nesses dias! Abraços!

  2. Tricia disse:

    Concordo com vc em tudo… Tive o prazer de assistir ao show, no engenhao -Rio, e fiquei completamente maravilhada do inicio ao fim, mas o esforço para me livrar dos malas de plantão que ficavam o tempo inteiro com seus celulares e maquinas, atrapalhando a visão de quem estava atras, foi bem desagradável. Enfim, apesar disso, foi o SHOW, assim que acabou fiquei com vontade de ver mais uma vez, e outra, e outra….

  3. donizeti monteiro disse:

    Eu fui no ultimo show do Morumbi, fiquei na arquibancada mais longe. Mesmo assim fiz questao de registrar aquelas musicas que mais gosto. Meu melhro DVDe o in the flash e vou lhe dizer 3 dias depois do show ainda estou sentindo cada momento, som, e video que vivenciei. Sinto vontade de ir novamente do show. Ja assisti minha filmagem umas 4 vezes e toda ves que toca confortably numb sinto um arrepio na espinha igual ao que senti no estadio. Vc tem razao no seus comentarios, mas nem todos estao filmando pro filmar! Eu fiz tudo com uma hand cam. sony e nao vejo a hora de comprar o dvd do show.

  4. Não seria nada mau que a educação das pessoas fosse só a esse nível. Infelizmente estende-se a muitos outros e varia de pessoa para pessoa.
    Como você sabe adoro música, e solos como o de Roger Waters são eternos, um momento único, especialmente ao vivo.
    Compartilho com você a sua frustração. Pessoas como nós, em grupo, temos que começar a fazer um esforço para tentar ou contribuir para mudar este grande país.

  5. Geisa disse:

    Tb tirei umas fotos ocasionais. Não para mostrar que estava lá, mas para poder recordar os momentos magníficos que passei. Descobri o Floyd com 14 anos e me apaixonei tanto pelo trabalho solo do Gilmour qto do Waters. Foi emocionante. Tinha significado pra mim. Fui levada às lágrimas em Confortably Numb. Essa música faz parte da minha vida. Foi um show indescritível. Impecável.

  6. Rodrigo disse:

    Li a matéria e vou me manter neutro porque não gosto do Pink Floyd, isso se dá pelo fato de uma música deles ser utilizada contra o meu time do coração, então tenho certo bloqueio! Rs

    Mas com relação ao comportamento, também concordo que faz parte da necessidade de autoafirmação, de mostrar que estava lá, que fez parte e mostrar para os amigos.

    Mais uma vez gostei do post, cada vez mais completo e com imagens, muito legal!

  7. Luís disse:

    Faço um reparo pela crítica a um pretenso desconhecimento da importância de Waters, pelo público: THE WALL é essencialmente Pink Floyd, por mais que a temática seja uma inspiração pessoal do Waters.
    Imagino que o show foi montado pela perenidade do tema e pela sua qualidade, mas não para Waters mostrar que sabe fazer música sem o Pink Floyd.
    Por outro lado, a necessidade quase doentia de registrar o momento é pela necessidade permanente de auto-afirmação da juventude bem-aquinhoada, neste caso expressa pela facilidade de postagem em meio digital. Esta necessidade existe também em shows do Justin Bieber, por exemplo, não só em quando se trata de uma lenda-viva.

    • Antonio Borba disse:

      Caro Luís – eis aí um belo debate. Enfim, vamos por partes.
      1. The Wall, em minha opinião, é essencialmente Roger Waters, não Pink Floyd. Explico: apesar de obviamente fazer parte da obra do PF, exceto por 4 músicas coautoradas, as demais são 100% escritas por Waters e o álbum retrata puramente seus dramas e sua vida. Não há como dizer que esta obra não é, essencialmente Waters. Obviamente, os brilhantes solos de Gilmour estão presentes, os teclados psicodélicos de Wright, etc. Mas PF é Dark Side of The Moon.
      2. A necessidade de registrar o momento, a qual também retratei em meu post Viver é Fotografar?, faz parte de qualquer evento, embora, no meu ver, por razões ligeiramente diferentes. Se fulano é fã do Justin Bieber e vai no show do mesmo, entende-se um pouco melhor o afã de registrar digitalmente o momento, dada a idade do público, etc. Agora, essa galera nova, justamente a que mais estava “documentando” o show de Waters, não viveu o momento Pink Floyd, e possivelmente tem pouca identificação com a banda muito menos com seu ex-líder (assim presumindo), portanto pergunto até que ponto estão filmando músicas inteiras de tanto que gostam do show… improvável. Desconhecem e desrespeitam o artista, no meu ver.

      • Alexandre disse:

        Parabéns Antonio,

        Meu ingresso para amanhã esta garantido.

        Todo show é único. Todo momento é único.

        Não dá para reproduzir, mesmo em vídeo profissional (DVDs,etc), a grandeza de um momento deste. Portanto viva cada instante como se fosse o único.

        As cameras destas pessoas são os verdadeiros muros que as escondem de suas mazelas e frustações.

        Recomendo que registrem seus momentos sim com fotos, para que os verdadeiros momentos fiquem apenas na lembrança.

        Mas antes olhem para frente e vejam o real momento de suas vidas que voces estão perdendo, por conta da ansiedade de tentar “registra-los”.

        Abs.

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