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O Inglês das Comissárias de Bordo


O Inglês das Comissárias de Bordo - AntonioBorba.comA cena certamente você já conhece. Voos domésticos, rotas insignificantes, e lá vem, para cada mensagem anunciada em português, a infame “versão em inglês” das comissárias (ou comissários) de bordo.

Frequentemente, o sotaque pronunciado de quem não é familiarizado com o idioma carrega estas versões macarrônicas com temperos regionais e adaptações que as tornam virtualmente incompreensíveis (e muito irritantes). É muito mais que falta de fluência. O mero fato de ouvir essas versões costuma, eventualmente, ser ofensivo a ponto de evocar sentimentos suicidas (e “vergonha alheia” também).

É muito óbvio que a pessoa não precisa ter um inglês perfeito e irretocável para trabalhar em uma companhia aérea. Porém, eu sempre penso que quando realizamos um serviço como parte de nossa rotina, podemos ao menos tentar fazê-lo benfeito. Não é preciso muito esforço para conseguir isso. O inglês é tão fundamental, falado em filmes, músicas, sites da Internet, que é quase impensável a vida sem um conhecimento básico do idioma.

Portanto, compartilho com vocês a minha indignação através de uma classificação desses exímios profissionais, que podem se enquadrar em uma ou mais categorias. Você reconhece alguma?

Sem vergonha de ser capiau

Esta humilde classificação é adotada apenas pelos mais inocentes profissionais de bordo. Trata-se do inglês macarrônico proferido sem disfarces e sem medo de errar. Palavras como temperature e emergency são brutalmente assassinadas.

O “speech accelerator” tabajara

O profissional, sabendo que fala inglês muito mal, adota um método de disfarce que engana tão somente o completo desconhecedor da língua estrangeira. Sua forma de driblar a falta de conhecimento é acelerando as passagens, embolando as palavras e juntando uma na outra. Sabemos que pessoas com boa dicção fazem exatamente o contrário: separam bem as palavras e fazem soar cada letra.

O método “enrolation”

Uma variação da técnica anterior, mas sutilmente diferente – nessa, o profissional “enche a boca” para falar, enrolando a dicção e misturando as palavras a um sotaque regional. É o método preferido dos cariocas, pois seu sotaque carregado ajuda muito a disfarçar a péssima pronúncia – “…fasssssten your seaty belty…

O “versionador”

Dotado da mais criativa cara de pau, este profissional simplesmente muda o contexto do que está sendo falando, simplificando ou alterando o significado para se adaptar ao que sabe dizer. Muito utilizado nos improvisos que fogem do script padrão dos procedimentos de bordo. Acompanhe um exemplo real que presenciei:

Frase original:Senhores passageiros, chegamos a Curitiba e a temperatura externa é cerca de 20 graus e subindo, o tempo está nublado com possibilidades de chuva.

Frase versionada:Ladies and gentleman, temperature is 20 degrees.

O “ignorador”

Em nível avançado, o ignorador” nada mais é do que um “versionador” cujo saco já se encheu. A frase é tão difícil de ser traduzida que ele simplesmente ignora ao melhor estilo de Peter. Essa técnica é largamente utilizada justamente naqueles anúncios mais importantes, os avisos de conexão:

Frase original: “Senhoras e senhores, aqueles passageiros que efetuam conexão para as cidades de Rio de Janeiro e Recife, queiram, por favor, procurar nossa equipe para maiores informações. Ao desembarcar, verifiquem se estão levando consigo todos os seus pertences pessoais.”

Frase do ignorador: “…………..”

Afinal, quer dizer que anunciar em inglês os manjados procedimentos de segurança, a velocidade, altura e temperatura externa em cruzeiro (absolutamente inúteis para quem viaja “dentro”) é considerado mais importante que anunciar uma conexão?

Afinal, qual é a solução?

Quando me deparo com um problema, fico imaginando quais são as possíveis soluções. Poderíamos mandar cada um dos profissionais de bordo para um intercâmbio no exterior? Seria bom pra eles, já que existe a facilidade da passagem, mas creio que não precisamos chegar a esse ponto…

Meu pedido, para a simples paz dos meus ouvidos, é simplesmente… se nada mais for possível, ao menos “decorem a p**** do script padrão” da mesma forma que um integrante do BBB canta uma música em inglês. Pronto, se um brother pode fazer isso, vocês também podem.

Enquanto isso, sugiro que se divirtam com o comercial de uma inteligente escola de inglês para crianças. Descobri em um post do blog “Aviões e Músicas” – confira.

1 comentário em O Inglês das Comissárias de Bordo

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