Categorias: Comportamento Cotidiano

A Conta Social do “Jeitinho Brasileiro”

Estados Unidos x Brasil = Diferenças Culturais - AntonioBorba.comA diferença cultural entre Brasil e Estados Unidos é gritante. O mundo, de forma geral, tem mania de falar mal dos americanos mas consome seus produtos sem pestanejar. Me refiro tanto a bens de consumo quanto produtos culturais. Em muitos casos, é uma relação de amor não declarada.

Eu não coloco os Estados Unidos em um pedestal, e acho estranho muitos hábitos culturais deles, assim como eles acham estranho alguns costumes tupiniquins. Fato é que vivemos em um país subdesenvolvido, e se tem uma coisa que admiro na cultura americana é: eles acreditam no que você fala.

Caso 1: Blitz

Vou explicar uma diferença que ilustra bem o que estou falando. Quatro horas da manhã, você passa de luz apagada em uma blitz policial, não percebe a ordem do policial para parar na primeira barreira e segue adiante. Na segunda barreira, dentro da mesma blitz, um policial lhe aborda. O que aconteceria no Brasil? Arma em punho, teste de bafômetro, documentos, geral no veículo?

Bem, há muitos anos atrás aconteceu exatamente isso comigo em Miami. Ao contrário do Brasil, lá há forte aparato policial nas ruas durante toda a madrugada, e as leis são aplicadas severamente. O policial indagou por que motivo eu não parei. Eu disse que não havia visto a ordem. Ele disse que o colega dele estava tentando me avisar que meus faróis estavam apagados. De fato, as avenidas nas cidades americanas são tão bem iluminadas que não é incomum esquecer de acender os faróis, porque quase não fazem diferença na sua visibilidade. Eu acendi, ele mandou tocar adiante. Não pediu meus documentos, não me fez descer do carro, sequer analisou meu estado etílico.

Qual foi a grande diferença nesse caso? O policial realmente acreditou que eu havia esquecido de acender os faróis, ao invés de achar que eu estava bêbado ou querendo furar a blitz. E essa não foi a única abordagem policial civilizada que sofri.

Caso 2: Aluguel de Carro

Quem já alugou carro na américa sabe que é mais fácil do que trocar de roupa. O carro é uma commodity, ninguém está ligando se você encostou em uma vaga, se deu uma raspadinha ou o que seja. Se acontecer algo mais grave, debitarão em seu cartão e pronto. É muito comum, na devolução do carro, ninguém olhar nada. Você pode devolver em um posto automático, deixando a chave em uma caixa de correios e largando o carro na vaga indicada (sem supervisão humana).

Um dia desses, no Brasil, precisei alugar um carro na AVIS para comparecer a um funeral familiar, a alguns quilômetros do aeroporto no qual pousei. Não obstante aguardar 1h30 em um mar de burocracias e má vontade para conseguir pegar o carro (enquanto o velório se consumava), me entregaram um carro com cerca de 80 mil Km. Sem problemas, mas nos Estados Unidos, foram poucas as vezes que aluguei um carro com mais de 10 mil milhas, quando não é zero quilômetro (eles são bons nisso).

Enfim, ao devolver o carro, a placa traseira havia se soltado e logo percebi que isso gerou um transtorno sem tamanhos. Não somente na devolução do carro, mas também no guichê (operação que deveria se resumir a apenas uma única) fui indagado sobre o motivo da placa estar quebrada, se eu havia batido o carro (que não apresentava sinal algum de acidente) e minha conta não pode ser fechada.

Somente uma semana depois, após uma “perícia”, fui notificado de que a placa não seria cobrada. Puxa, incrível, que benefício. Recebi um carro com a placa soltando e por pouco não tive que pagar a conta.

Resumo da Ópera

Eu não sei se todo o constrangimento que passei por causa de uma simples placa tem a ver com a fama de desonesto que o povo brasileiro tem. Eu acho bastante ofensivo quando duvidam do que estou falando, ainda mais quando se tratam de coisas pequenas como essa, cujo valor não compensa nem mesmo o tempo que perdi escrevendo sobre essa porcaria de empresa chamada AVIS. Está claro que o atendimento deles no Brasil é muito divergente daquele recebido nos Estados Unidos ou Europa.

Talvez se as pessoas acreditassem mais umas nas outras, nada daria certo por aqui e muitos levariam vantagem, pois vivemos no país da corrupção e da esperteza. Será que é por esse motivo que interrogatório sem tortura quase não existe? Porque as pessoas mentem ou não veem vantagem em cooperar com a polícia? 

Acrescente-se que, de forma geral, temos pouco senso de civismo e pouco patriotismo, qualidades admiráveis nos americanos. Quando paro para refletir sobre isso, questiono que tipo de povo nós somos.

9 comentários em A Conta Social do “Jeitinho Brasileiro”

Outros Posts:

21/01/2011

Redes Georreferenciáveis não Decolam

Veja vídeo com entrevista ao final da matéria. Há algum tempo se fala sobre as redes sociais georreferenciáveis,  "geotagged" ou "location based". Exemplos mais comuns: Foursquare e Google Latitude. Alguns especialistas apostam que elas estão na crista da nova onda das comunidades i ...

Saiba Mais

11/03/2011

O Poder da Gravação

O poder é um magneto que atrai o homem. Porém, o poder pode ser exercido de diferentes formas, das mais sutis e triviais até as mais destrutivas. Para este post, vou ignorar a busca pelos grandes poderes: político, militar, nos negócios e similares. Eu acho mais interessante observar as peq ...

Saiba Mais

9 Respostas para A Conta Social do “Jeitinho Brasileiro”

  1. Gessé Furlan disse:

    Certa vez, eu estava numa fila de banco, daquelas “kilométricas” e um cara conhecido do trabalho, mas que não é meu amigo (faço questão de não ter este tipo de amizade), chegou. Eu já estava para ser atendido e o cara-de-pau disse: Obrigado por ter guardado a vaga pra mim, ainda bem que deu tempo. Cortou a frente de todos na maior “cara larga”. Fiquei mudo na hora tamanha a surpresa que tive com aquela atitude desonesta. Eu fico pensando o seguinte: quem tem coragem de fazer isto, tem coragem pra muito mais. E normalmente este é o tipo de gente que o brasileiro elege e depois fica reclamando. Quando tem-se a oportunidade de fazer a diferença o brasileiro cai novamente na armadilha do tão maléfico “jeitinho brasileiro”. Sinceramente, não tenho esperanças de que a coisa mude em nosso país. Acho que é melhor eu mudar de país como meu irmão fez a treze anos.

  2. Rodrigo disse:

    O título do texto resume tudo.

    Vou acrescentar mais um fato nesta conta “BRAZUCA”.

    Isso vale também para aquelas mães que vão ao caixa preferencial destinado a crianças de colo. A criança fica andando e pulando e na hora de pagar a conta ela pega a criança no colo e fura a fila. Depois de pago larga a criança para ir andando… Mais uma na conta comportamental e cultural dos brasileiros.

    Isso aconteceu comigo agora esses dias e fiquei muito revoltado.

    • Antonio Borba disse:

      Olá Rodrigo, tudo bem? Obrigado mais uma vez pela sua participação!
      O que você fala me deixa indignado, mas nem vamos entrar nesse assunto porque minha opinião é por demais radical. Eu já fico de cara com essas filas de idodos, porque acho que eles têm mais tempo! E o supermercado que eu compro deixa umas 20 vagas pra eles, claro que sempre tem apenas uma ou duas ocupadas e o resto… vazias, em um lugar onde eu poderia parar com mais facilidade.
      É o “jeitinho” que ferra com tudo.

    • Leonardo disse:

      Essa diferença de honestidade se ve claramente quando você faz uma compra pelo Mercado Livre e uma pelo Ebay… no Ebay se vc comprar um produto “Like new” é novo, perfeito, não tem riscos nada é realmente como novo…

      Já uma venda no mercado livre no estado “como novo” quer dizer que, não esta quebrado, mas com alguns riscos normal de uso e um trincadinho no canto 🙂

  3. Angela disse:

    SHOW BORBINHA!!! NAO PODERIA TER COLOCADO MELHOR ESSE FATO E MTOS OUTROS Q PARA MIM (1/2 BRASUCA 1/2 GRINGA)SAO TAO GRITANTE… QUERIDO SDDS VENHA LOGO ME VISITAR NA TERRINHA DO TIO SAM. BJKS

  4. Miguel Grespan disse:

    Talvez pelo fato de ser Latino, eles quiseram primeiro ver se não havia nenhum delito com aquele carro, onde poderia ter sido tirada a placa para praticer algo ilícito.
    De qualquer forma, em minha última viagem, a Avis não foi honesta em relação a preços pre agendados e os praticados. Risquei a Avis da minha lista!

    • Antonio Borba disse:

      Olá Miguel, bem… hehe, eu não duvidaria disso. Mas aí seria um caso de polícia e não de deixar a “conta em aberto”. Certamente, eu também risquei a Avis das minhas opções. Abraços!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*