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Cruzadas Pessoais Pós-Tragédia

Cruzadas Pessoais Pós-Tragédia - AntonioBorba.comCom o crescimento das cidades, o aumento da violência, a abrangência da mídia e a degradação da humanidade de forma geral, percebi que aumentou muito o número de pessoas engajadas em cruzadas pessoais contra as mais diversas causas: violência (no trânsito e de forma geral), combate ao câncer e doenças diversas, dentre outras.

O que mais me enoja diante de tudo isso não é a causa em si, pois geralmente, observada de forma isolada, é muito nobre. O que me parece completamente absurdo é que 90% das pessoas que assumem uma postura ativista só o fazem após viver uma tragédia pessoal.

Tudo indica que hoje em dia sofrer em silêncio não é uma opção. As pessoas são frágeis, sensíveis e carentes. Uma situação grave leva a um sentimento de indignação que logo é exposto a todos os convives, através da mídia, redes sociais e tudo o mais que estiver ao alcance. É a necessidade de gritar, desabafar e compartilhar a desgraça com os outros.

Pergunto o que aconteceu a palavras tais como RESILIÊNCIA e RESIGNAÇÃO. Teriam sido riscadas dos dicionários “web 2.0”?

Alguns casos de cruzadas pessoais

Contra a violência no trânsito
Tenho visto na TV um rapazinho cuja mãe morreu atropelada. Realmente, é triste e não deve ser fácil lidar com isso. Agora ele se tornou um ativista incansável contra a violência no trânsito, percorre programas de TV, organiza blogs e passeatas. Pena que essa chama incansável se acendeu apenas após a morte de sua genitora. Quem sabe, fosse um ativista antes disso, teria evitado a morte dela?

Cruzada contra os desaparecidos
Há uma personagem famosa na história policial do Paraná. Seu filho desapareceu há um bom par de décadas e até hoje ela luta para encontrá-lo, promoveu diversas ações, mobilizou a polícia e a população e até seguiu carreira política. Nobre, porém, terá a vida dela sossego algum dia? Há alguma chance do filho ser encontrado? Antes do filho desaparecer, ela se importava com o desaparecimento dos filhos dos outros?

Em prol da cura para o câncer
Fulano é um empresário rico e famoso. Entretanto, sua filha morreu ainda jovem, vítima de um câncer raro que se mostrou incurável. Agora, boa parte de sua fortuna foi dedicada a institutos que buscam a cura para o câncer, ele também faz palestras e até criou uma ONG para arrecadar doações de terceiros para essa causa. Curiosamente, creio que ele não dava a mínima para o câncer até sua filha ficar doente. Ironicamente, se tivesse investido sua fortuna na pesquisa da cura antes de ela adoecer, quem sabe não poderia estar viva?

Contra a violência nas cidades
De uma forma geral, somos todos contra a violência. Entretanto, esses dias eu vi na TV um pai que sofria com a morte do filho. Ele recitou o velho bordão “a situação chegou a um ponto em que ninguém aguenta” e que não vai sossegar enquanto não houver justiça, aquela coisa toda que já ouvimos antes. É compreensível, mas, até seu filho ser cruelmente assassinado ele aguentava muito bem a violência da sua cidade, sem participar de nenhum movimento contra ela.

Conclusões que podem ser tiradas

Eu considero essas pessoas todas umas egoístas. Temos que respeitar o sofrimento delas, mas, enquanto tinham uma vida confortável, jamais se moveram ou chamaram atenção para alguma causa. Pelo menos eu não vi elas fazerem escândalos por causa de outras pessoas que morreram nas mesmas situações, ou piores.

Logo, em vez de movimentar “mundos e fundos” para combater a injustiça” que foi “colocada” em sua vida, que tal se perguntar se o destino, ou a sua evolução, não a levou até esse caminho para um aprendizado? Reclamar e protestar contra as intempéries é um direito de cada um, mas… que tal lembrar o significado daquelas palavrinhas esquecidas?

Resiliência: indica a capacidade de um indivíduo em lidar com obstáculos e superar problemas mantendo a dignidade e a saúde mental.

Resignação: um termo envolto em espiritualidade, mas também relacionado à capacidade psicológica de aceitar uma situação e vivenciá-la, sem tentar mudá-la (mesmo porque não pode ser mudada).

Após considerar tudo isso, devo dizer que há dois tipos de pessoas que eu realmente admiro e respeito. A primeira é aquela capaz de sofrer em silêncio, compartilhando apenas com os mais próximos as suas adversidades, sem penalizá-los por serem seus amigos. Essa pessoa, geralmente, é capaz dos mais profundos sentimentos e sabe dar o devido valor a um momento de luto, evitando uma exposição vulgar e desnecessária tão comum em nosso mundo de redes sociais.

A segunda pessoa que admiro é aquela engajada em uma causa que acredita, mesmo sem ter sofrido nenhuma desgraça que relacione sua experiência com o sofrimento que combate. Essa pessoa é verdadeiramente umarealizadora e suas ações altruístas geralmente resultam em benefícios consideráveis para os outros.

Pense nisso.

2 comentários em Cruzadas Pessoais Pós-Tragédia

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2 Respostas para Cruzadas Pessoais Pós-Tragédia

  1. Muito bom! Texto para pensar e reavaliar algumas atitudes.

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